Entrevista Traduzida: Sharp Magazine – Novembro 2015

Fonte: sharpmagazine
Tradução por Nataly Tedeschi.

Você tem medo do Tom porque tem medo da masculinidade

Tom Hardy está sentado na cadeira de balanço de sua esposa, conversando sobre seu trabalho.

É um móvel que ela usará bastante num futuro próximo para amamentar e confortar o bebê deles, prestes a chegar. Mas, já que a criança ainda não chegou, Hardy está ali, balançando ao lado de seu cachorro. Talvez o cachorro esteja em seu colo. Ele está ligando da Inglaterra, então não consigo ter uma imagem clara. A questão é: há um cachorro. Com o Tom Hardy, sempre há um cachorro. Já é uma cultura popular neste momento, como Michael Jackson e luvas de lantejoulas ou Johnny Depp e chapéus estranhos. Tom Hardy gosta de cachorros.

E cachorros gostam dele. Sabem por quê? Pois, como o melhor amigo do homem, os cachorros identificam o Tom Hardy como alguém para agarrar-se.

Basicamente, Tom Hardy é o Homem Ideal. Então, a lógica é, quanto melhor o homem, melhor o amigo. Cachorros sentem esse tipo de coisa instintivamente. E, mesmo que não sejamos tão bons nisso quanto eles, nem tão abertos sobre isso, outros homens sentem esse tipo de coisa também. Existe algo no Tom Hardy que nos puxa, magneticamente, mas de uma forma bastante discreta. Honestamente, é difícil dizer como chegamos a tal conclusão, mas alguma parte animal do nosso cérebro parece ter decidido que o Hardy é tudo aquilo que os homens querem ser. Sim, isso acontece muito com atores, mas é mais sobre a personalidade de um ator, ou dos personagens que interpretam. Por mais ilusório que o Hardy possa ser, simplesmente há algo de “Além-Homem” nele.

Sim, é uma afirmação exagerada, que facilmente poderia soar como bajulação – algo que, ironicamente, Tom Hardy jamais seria – e, portanto, requer certo estudo para apoiá-la. E isso é o que faremos aqui.

Deve ser dito: Hardy quase certamente iria discordar dessa avaliação. Enquanto ele está balançando, ele me conta sobre o móvel da IKEA que teve que construir recentemente. E como era impossível. “É como um prato grande de espaguete. No começo é uma delícia, mas aí você continua e continua, até que passa a ter certeza que ainda estava claro quando começou a comer,” ele diz. “Comecei todo otimista. Mas depois minha esposa teve que vir e terminar.” O móvel, ele quer dizer, não o macarrão metafórico.

O que o lembra: “Monkey?” ele chama a esposa, “Eu sou bom em alguma coisa masculina?”

“Você é um bom protetor,” ela diz. “Sempre me sinto segura com você.”

“Tá aí,” ele triunfa, brincando, “Eu sou um protetor.”

E honestamente, dada oportunidade, no que você preferiria ser bom? Proteger sua pele, ou a habilidade de ler vagas ilustrações suecas de forma a sobreviver à tribulação infernal que é a montagem de móveis? O Homem Ideal não seria bom nas duas coisas, você diria? Bem, claro. Mas ninguém está afirmando que o Tom Hardy é um deus.

Há grandes chances de estarmos projetando algo; quando a questão do Tom Hardy ser o tipo de homem que cada um de nós aspira ser, vamos apenas ter conseguido destacar inseguranças comuns entre homens normais. Mas não é assim que a maioria dos homens fica famosa? Eles usam alguma aspiração que compartilhamos secretamente, ou nem tão secretamente assim; eles preenchem uma lacuna. O sucesso deles está diretamente relacionado com o grau pelo qual eles se alinham com o nosso eu imaginário, aperfeiçoado. É a razão pela qual as celebridades são colocadas nas capas das revistas, e homens compram essas revistas. Nós queremos ter nossas suspeitas confirmadas, não apenas que o James Bond é legal, por exemplo, mas que o cara interpretando ele, também é.

Isso nos leva a uma das coisas mais interessantes sobre o Tom Hardy. Enquanto a maioria dos atores chega ao estrelato com uma mistura de talento e marca pessoal – quem eles são dentro e fora da tela – o sucesso de Hardy tem muito pouco a ver com sua vida pessoal. Ele não faz questão de falar sobre ela. Você poderia argumentar dizendo que esquivar-se de perguntas pessoais faz parte da sua marca pessoal – que é tão parte do jogo quanto qualquer personalidade atuada – mas com o Hardy, funciona porque mostra ser totalmente, incompreensivelmente genuína. A verdade verdadeira. Não é que ele queira parecer misterioso, ou sério. É que ele honestamente não entende por que alguém iria se importar com algo que não fosse seu trabalho. Ele já disse inúmeras vezes aos jornalistas que sua vida é entediante. Contrasta tanto com uma indústria que agora leva em conta o número de seguidores no Twitter de um ator antes de contratá-lo, que é quase um milagre Hardy ser famoso. É uma prova do seu talento.

Pra ele – e pra nós – o seu trabalho é o que importa. E, mais especialmente, o que podemos dizer sobre ele vem do trabalho dele e como ele o faz. É a diferença entre uma estrela de cinema e um ator. Mostre, não fale. Pode-se descobrir mais sobre um homem analisando seu histórico e suas afirmações, mas no fim, fica muito subjetivo. Tom Hardy é um homem que entende que ele é julgado por seu trabalho, e assim ele continua trabalhando. Isso é masculinidade.

Além disso, não é que ele nunca tenha falado sobre seu passado; é que por mais interessante que seu passado possa ser para pessoas que não o viveram, é chato pra ele agora – do jeito que nossos passados deveriam ser para nós. Siga em frente, viva agora. Evitar o tédio é algo muito importante para Hardy. O medo disso, talvez, seja seu maior motivador.

“Seja ótimo ou seja simplesmente horrível, uma porcaria completa. Mas não seja chato,” ele diz. “É a pior coisa.” É pouco surpreendente. Em uma entrevista antiga, ele mencionou que a humilhação era o maior perigo pra um ator. Ele tem sido consistente. Ele deixa claro que ser visto como medíocre ou maçante seria humilhante pra ele. Imagine se todos nós equiparássemos mediocridade com humilhação: a produtividade no ambiente de trabalho subiria rapidamente. Você, aí na sua mesa, não gostaria que fosse você?

Dito isso, não é difícil desenterrar seu passado: nascido com privilégios em Londres, ele se rebelou. Ele foi salvo pela atuação; foi treinado pelo mesmo estilo de escola de Whiplash – Em Busca da Perfeição, de onde nasceu o respeitável colega ator Michael Fassbender, que estava um ou dois anos na frente dele. Depois disso, ele teve um gostinho do sucesso, mas então preferiu mais o gosto do vício. Foram drogas pesadas. E depois, houve a recuperação. Agora, há o trabalho. E é melhor que ele seja muito emocionante.

Duas coisas irão lhe surpreender sobre Tom Hardy, caso venha a falar com ele. A primeira é sua voz. Intelectualmente, você sabe que ele não soará como o Bane, cuja voz ele se inspirou em um homem chamado Bartley Gorman, um Rei Cigano briguento que ele viu no YouTube. Você também sabe que ele não vai soar como americano, embora ele seja fluente nesse sotaque também. Na verdade, quanto mais filmes dele você assistir, mais difícil ficará de imaginar como ele soa fora da tela. Hardy habita seus personagens totalmente. Ele faz escolhas corajosas que não são exatamente necessárias, mas que se tornam essenciais.

Eu digo a ele que algumas noites antes, eu assisti Locke, que se passa inteiramente dentro de um carro , com a câmera movendo apenas do rosto de Hardy para mostrar relances da estrada, ou o sistema de bluetooth da BMW. É fascinante – a história de um homem escolhendo seus princípios enquanto sua vida desaba – e é totalmente pelo Hardy. Nada no roteiro pedia que Ivan Locke, o homem que Hardy habita, tivesse sotaque galês. Foi uma escolha que ele fez depois de passar um tempo com um guia no Afeganistão cuja voz manteve Hardy o mais relaxado possível em situações de perigo. Ele mergulha nela enquanto fala comigo, como um truque, dizendo que sempre que precisar acalmar alguém, usará essa voz.

Mas sua voz real é muito mais casual. Ele soa jovem. Britânico (obviamente) do jeito que as pessoas soam quando tentam imitar sotaques britânicos. Não é o sotaque perdido, pomposo, de um ator que afastou os traços de suas raízes. É desarmante em sua normalidade, surpreendendo apenas pelo fato de ele nunca usá-la.

Junto com as histórias de seu passado conturbado, o que as pessoas tendem a falar quando falam sobre Tom Hardy é o senso de perigo. Você o vê em quase todos os papéis que ele interpreta – inclusive e especialmente no próximo Legend, onde ele interpreta os gêmeos gângsteres Reggie e Ronnie Kray (“Interpretar um papel duplo como aquele fazia parte de uma lista de desejos,” ele diz). Você também sente o perigo quando ele é confrontado com uma pergunta que ele não faz questão de responder, como quando perguntaram a ele sobre sua sexualidade na entrevista coletiva do último ano no Festival Internacional de Filmes de Toronto (TIFF). Ele também tem tatuagens, muitas delas. Tem amigos militares e sabe usar armas. Viu, perigoso. Mas sua risada é aguda, brincalhona, sem tensão. É um convite para participar de qualquer divertida história ‘dá-pra-acreditar-que-isso-está-acontecendo’ que ele estiver contando. Como quando ele estava trabalhando com um homem em um papel e começou a imitar seu comportamento de forma tão assertiva que, sem nenhuma ironia ou farsa, ele começou a se vestir como ele. “Eu até coloquei uma caneta no bolso, como ele fazia,” ele diz. E ri.

A risada, e o sotaque confuso, porém, não prejudicam sua seriedade. Eles a melhoram. É um difícil equilíbrio para um homem, saber exatamente quando ser leve, sem ser leviano, envolvente e cativante, mas nunca carente. O trabalho é sério. A masculinidade é de verdade. Mas, somos todos sortudos pra caramba também.

“Eu mantenho um pequeno círculo social,” diz ele. “Um pequeno círculo social. Eu sei bater papo em festas quando preciso, mas sou muito mais feliz sozinho.” Ele é introvertido, ele diz, e isso deve ser a curiosidade menos surpreendente sobre Tom Hardy. Melhor para observar as pessoas. “Mas sem julgá-las,” ele esclarece.

De repente, ele parece um pai – o que ele é: com o segundo filho a caminho – dando conselhos: que você pode querer estar sozinho, que o importante é ter o coração aberto, até mesmo bondoso. “E está tudo bem em mandar alguém cair fora. Quando precisar, é certo mandar alguém cair fora. A melhor coisa é mandar alguém cair fora, e depois no outro dia levar um bolo pra ela,” ele ri. “Porque ela precisava ouvir aquilo.”

Mas enquanto a observação é essencial para o seu ofício, não seria nada se ele não fosse tão bom em incorporar o que ele vê, nas suas atuações. “O lance está em encontrar algo que funcione, e então ser cuidadoso para não depender demais disso, pra que não se torne cliché,” ele diz. Os clichés também são importantes para Tom Hardy. Pois eles são chatos. Preguiçosos. E Tom Hardy não é preguiçoso. “Se não é importante, então por que estou fazendo? Já esgotei todas as opções? Eu já tentei de tudo? O que foi que fizemos? O trabalho não para. Não há respostas.”

E, no entanto, por si só, essa filosofia é resposta pra muita coisa. É a lição que Tom Hardy nos ensina toda vez que aparece na tela em qualquer filme. É assim que você evita a humilhação. É como você habita seus papéis, e faz seu trabalho. É como se mantém sério, e também sorri. Você nunca para de trabalhar. Você questiona. Você ouve, observa, e mantém seus amigos por perto. É como consegue proteger sua família. É como o Tom Hardy permanece o Tom Hardy.

É assim que você se torna um homem.

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